11.22.2005

A Morte do Amor

Todos os dias morre um amor.
Quase nunca percebemos, mas todos os dias morre um amor.

Ás vezes de forma lenta e gradual, quase indolor, após anos e anos de rotina.

Ás vezes melodramáticamente, como nas piores novelas mexicanas, com direito a “barraquices” públicas, capazes de acordar o mais surdo dos vizinhos.
Pode morrer numa cama de hotel ou simplesmente em frente à televisão de Domingo.

Morre sem um beijo antes de dormir, sem mãos dadas, sem olhares compreensivos, com um gosto salgado de lágrima nos lábios.

Morre depois de telefonemas cada vez mais espaçados, diálogos cada vez mais resumidos, de beijos cada vez mais gelados...

Morre na mais completa e letal falta de acção!...

Todos os dias morre um amor, embora nós, românticos mais na teoria do que na prática, somos relutantes em admitir.

Pode morrer como uma explosão, seguida de um suspiro profundo (porque nada é mais doloroso que a constatação de um fracasso), de saber que, mais uma vez, um amor morreu.

Porque, por mais que não queiramos aprender, a vida sempre nos ensina alguma coisa.

Esta é a lição: QUALQUER AMOR PODE MORRER!

E, todos os dias, nalgum lugar do mundo, existe um amor que está sendo assassinado.

Como pista do terrível crime, surge um saco de presentes devolvidos, uma lista de palavrões sem censura, ou o barulho insuportável do relógio depois da discussão... Afinal, todo crime deixa as suas evidências!

Qualquer um de nós pode ser um assassino…
E podemos agir como age um assassino: podemo-nos esconder debaixo dos lençóis, podemo-nos refugiar nas salas de cinema vazias, ou preferir trabalhar que nem um louco, ou viajar para "espairecer", ou confessar a culpa em altos brados, fazendo do empregado de bar um confidente…

Existem também os amores que clamam por um tiro de misericórdia: ainda estão juntos, mas comportam-se como um cavalo ferido, à espera de ser sacrificado.

Existem também os “amores-fantasma”, aqueles que se recusam a admitir que já morreram. São capazes de perdurar anos, como mortos-vivos sobre a Terra, teimando em resistir, apesar das camas separadas, dos beijos frios e burocráticos, do sexo sem tesão (se houver).

Esses não querem ser sacrificados, mas irão definhar aos poucos…

Existem ainda os “amores-vegetais”, aqueles que vivem em permanente estado de letargia, que se refugiam em fantasias platónicas, recordando até o fim de seus dias o sorriso da loirinha da 4ª classe.
Ou se faz presente no(a) fã que até hoje suspira e delira em frente de um poster do seu ídolo musical…

Mas eu, quase já desistindo da minha busca, pude ainda encontrar uma outra classificação: os amores-vencedores.
Aqueles que, apesar da luta diária pela sobrevivência, das infinitas contas a pagar, da paixão que decresce com o decorrer dos anos, da mesa-redonda no final de domingo, das cuecas penduradas no chuveiro e das brigas que não levam a nada, ressuscitam das cinzas e se revelam fortes, pacientes e esperançosos.
Mas esses são raríssimos, e há quem duvide de sua existência. São de uma beleza tão pura e rara que até parecem lendas.

Um dia vou colocar um anúncio, bem espalhafatoso, nos jornais: PROCURA-SE UM AMOR VENCEDOR — OFERECE-SE GENEROSA RECOMPENSA.
Mas, no fundo, sei que ele não surgiria como por acaso…

O que esses poucos vencedores falam é que esse amor foi suado, trabalhado, bem administrado nas centenas de situações do quotidiano.
Não é um presente da lotaria, nem da sorte, nem da magia.

É simplesmente o resultado concreto daquilo que foi um relacionamento maduro e crescente entre duas pessoas.

O amor, apesar de poder morrer, pode também vencer…







Novembro, 2005

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